Fernando Pessoa - 1923

"A flor que és, não a que dás, eu quero.

Porque me negas o que não te peço?

Tempo há para negares

Depois de teres dado."

...................................R.R.

quinta-feira, 17 de março de 2011

no forro da casa ou o pinóquio invejoso

Ele não fazia por mal. Nunca se importou em ter mais ou melhores brinquedos, ganhava briquedos usados e também novos e compartilhava com amigos . Talvez tenha sido esta atitude que despertou a ira de um amigo que para não ficar atrás sempre tinha um igual no forro da casa. Dizia o amigo que ele não podia ver os brinquedos, pois sempre havia um empecilho: ora o pai não deixava, ora a mãe...
_Tudo bem, uma outra hora você me mostra... vou voltar pra casa. Estou cheio de imaginação para ler um livro!
_..ahh!! E qual livro é?
_Pinoccio!

...

ps.: o outro nunca lera um livro.

deanmaire f.
16/03/2011 as 22h30 (mas podia ter sido antes...)

neve de isopor...

...após a aula matutina, o garotinho encontra a mãe no portão da escola conversando com a vizinha, ambas pegam nas mãos de seus filhos e juntos voltam para casa.
O garotinho, após a discussão com um amiguinho sobre um caminhão ser betoneira ou caminhão de lixo, volta cabisbaixo - com a sensação de ter perdido a discussão por não ter tanto argumento ao não ser a frase do pai: Um presente! É uma betoneira, caminhão que leva concreto. - apreciando a calçada que era feita de pedras beges e pretas as quais formavam desenhos de andorinhas, ave símbolo da cidade. Ao menos era. E do lado direito, passando rente ao seu ombro, um muro alto e chapiscado que arrepiava o garotinho só de pensar em cair e raspar a cara no muro: _"se raspar, aposto que o olho também fica grudado... deve furar... algo assim..." - pensava.
Um pedaço de isopor apareceu na calçada e rapidamente com a mão livre, o garotinho pega o isopor do chão e começa a esfrega-lo na parede imaginando seu rosto, porém o isopor esfarelado o tira daqueles pensamentos sangrentos e o leva a um mundo branco, coberto por camadas finas de neve que cai em uma densa quantidade...
_Moleque! (ela nunca o chamara de filho, até hoje.) Pára com isso ou vai machucar a mão! E olha a sujeira que você está fazendo!!
O garotinho, dentro do mundo branco de neve e silêncio, não escuta a mãe, apenas "sente" o estalo do tapa da mãe na mão...
_... que sujeira! - são as últimas palavras da mãe que ele entende.
_... Não mãe... era apenas neve de isopor...
E segura o choro até seu quarto onde, para esquecer a dor na mão, volta para o silêncioso mundo branco, com uma camada de neve... manchada de vermelho...

                                               

                                                                                                               deanmaire f.
                                                                                                               16/03/2011 as  22hs (mas poderia ter sido bem antes...)